Clique aqui no logo para voltar ao início
no site na web
E-mail: Senha: Lembrar senha

A mostra "Esplendor de Visconti" chega ao Brasil

Mestre Visconti
Por Zé Gatti

16/8/02

A mostra "Esplendor de Visconti" chega ao Brasil com uma retrospectiva bastante completa da obra de um dos maiores cineastas de todos os tempos. Luchino Visconti nasceu na Lombardia, em 1906 e at√© sua morte, em 1976, atuou como diretor de filmes, pe√ßas de teatro e √≥peras. Fico tentado, aqui, a recomendar que todos vejam os filmes que comp√Ķem a mostra sem prestar muita aten√ß√£o nos dados biogr√°ficos, que os resenhistas insistem em citar quando escrevem sobre Visconti. Acredito mesmo que seus filmes s√£o eloq√ľentes o suficiente para deixar clara a import√Ęncia do diretor italiano na hist√≥ria do cinema.

Veja, por exemplo, porque "Morte em Veneza" √© um dos filmes mais aclamados do s√©culo do cinema. A complexa e sutil rela√ß√£o da novela original do escritor alem√£o Thomas Mann com a m√ļsica de Gustav Mahler (cuja biografia inspirou Mann) est√° toda ali no filme de Visconti, no enquadramento delicado e preciso, no eixo dos olhares do protagonista (o sens√≠vel ator brit√Ęnico Dirk Bogarde) sobre seu objeto de amor, o garoto Tadzio (o sueco Bjorn Anderssen). Enquanto Veneza se decomp√Ķe na agonia da Belle √Čpoque e no epicentro de uma epidemia de c√≥lera, o sofrido compositor vivido por Bogarde descobre uma tardia paix√£o homoer√≥tica: √© a (re)descoberta da beleza, do amor e da morte num painel habilmente composto pelo mestre italiano. Como diz Denilson Lopes, em seu livro "O Homem que Amava Rapazes", esse filme "√© uma √≥pera de olhares... o velho m√ļsico recebe do jovem algo de t√£o poderoso que conduz a uma perda de refer√™ncias, a uma destrui√ß√£o de valores, como se sua experi√™ncia, seu mundo desmoronasse".

Por outro lado, se as cores tr√°gicas de "Morte em Veneza" perduram vibrantes ao longo dos anos, as cr√≠ticas em torno do filme raramente se desvinculam de considera√ß√Ķes biogr√°ficas. Quando o filme foi lan√ßado no Brasil, em 1971, a conservadora revista "Veja" o resenhou com o t√≠tulo de "Dupla Morte". Destacar a "decad√™ncia" de Visconti parecia, na √©poca, ser o alvo habitual dos jornalistas mais tacanhos. O pr√≥prio Visconti chegou a declarar, ir√īnico: "Sempre me trataram como decadente. Tenho da decad√™ncia uma opini√£o bastante favor√°vel. Estou imbu√≠do dessa decad√™ncia". √Č claro que, para o jornalismo mundano, essa "decad√™ncia" vinha associada ao fato de Visconti ter origem familiar aristocr√°tica (decadente!), ser marxista (contradit√≥rio!) e, o que incomodou muitos, declarar-se corajosamente homossexual (intoler√°vel!). A prop√≥sito de "Morte em Veneza", por exemplo, √© quase sempre lembrado que Mann, Mahler e Visconti (e Bogarde) compartilhavam dessa vis√£o homoer√≥tica do mundo.

Esses dados, hoje, parecem menores e mesmo desnecess√°rios quando se avalia a import√Ęncia e autonomia de sua obra. Ao mesmo tempo, nos permitem perceber a familiaridade que o autor tinha exatamente com esses temas. Visconti trataria da decad√™ncia social e pol√≠tica em muitos filmes. No excepcional "Os Deuses Malditos" ele faz um retrato impiedoso da ascens√£o do nazismo. Esse filme de 1969 conta com um elenco privilegiado (novamente Bogarde, acompanhado de Ingrid Thulin, Helmut Berger e Florinda Bolkan) e tem cenas antol√≥gicas. Numa delas, o personagem de Berger choca sua fam√≠lia, fazendo uma drag dos t√≠picos cabar√©s berlinenses da √©poca. Numa outra, de reconstitui√ß√£o hist√≥rica primorosa, as tropas SS invadem a concentra√ß√£o das SA para perpetrar o massacre que definiria o poder militar alem√£o antes da Segunda Guerra; os integrantes das SA s√£o tomados de surpresa, em plena orgia homoer√≥tica. Visconti d√° conta, assim, de fatos j√° celebrados, mas traz dados geralmente ocultos dos livros da hist√≥ria oficial.

Helmut Berger seria recrutado mais uma vez, em 1973, para representar a decad√™ncia de "Ludwig", o Rei da Baviera, cuja loucura, no filme, serve para espelhar complexidades sociais e pol√≠ticas do processo hist√≥rico da unifica√ß√£o alem√£. As amb√≠guas rela√ß√Ķes de Ludwig com o compositor Richard Wagner (protagonizado pelo veterano Trevor Howard) e sua prima, a imperatriz Elisabeth da √Āustria, s√£o mostradas de forma po√©tica, em que figurinos, objetos e cen√°rios participam como verdadeiros personagens. Vale lembrar que Elisabeth √© vivida pela bel√≠ssima Romy Schneider, que j√° tinha representado o mesmo papel na s√©rie "Sissi", melodrama alem√£o dos anos 50. A vers√£o de "Ludwig" que est√° na mostra √© a integral, de 237 minutos -- n√£o a mutilada pelos produtores por ocasi√£o de seu lan√ßamento.

A decad√™ncia das classes dominantes seria tamb√©m tema de outros filmes interessantes do autor, como "O Leopardo", "Viol√™ncia e Paix√£o" (os dois protagonizados por Burt Lancaster) e seu √ļltimo trabalho, "O Inocente" (estrelado por Giancarlo Giannini). Mas Visconti mostraria outras classes sociais em seus filmes. Em "Obsess√£o", de 1942, ele faz um retrato impiedoso do proletariado das pequenas cidades italianas. Baseado no romance "O Destino Bate √† Sua Porta", de James Cain, o filme inaugura o estilo neo-realista, com cenas rodadas em loca√ß√£o, elenco n√£o-profissional e foco sobre detalhes cotidianos. Visconti levaria essa proposta ao extremo em 1948, numa das experi√™ncias mais radicais do neo-realismo: o filme "A Terra Treme". Rodado inteiramente numa pequena aldeia da Sic√≠lia, o filme conta uma hist√≥ria de pescadores explorados por comerciantes, √© protagonizado pelos pr√≥prios habitantes do lugar e falado em dialeto. O filme √© raramente exibido e a c√≥pia apresentada traz legendas eletr√īnicas.

Em "Bel√≠ssima", de 1951, Visconti volta a retratar a classe oper√°ria, dirigindo uma das maiores atrizes do cinema, Anna Magnani. Segundo o pr√≥prio diretor, ela contribuiu com di√°logos para o roteiro, improvisando cenas para a surpresa da equipe de filmagem. O filme trata de um assunto bastante atual: o da explora√ß√£o de crian√ßas no mundo dos espet√°culos. "Rocco e seus Irm√£os", de 1960, tem uma excepcional fotografia em branco-e-preto de Giuseppe Rotunno e conta as lutas de trabalhadores que enfrentam dificuldades ao migrar do sul empobrecido da It√°lia para uma metr√≥pole industrial do norte. Esse filme celebrizou as atua√ß√Ķes de Alain Delon, Cl√°udia Cardinale e Annie Girardot.

A vasta produção de Visconti inclui outras jóias, como "Sedução da Carne" (protagonizado pelo belíssimo Farley Granger, que alcançou fama nos filmes de Hitchcock), "O Estrangeiro" (uma adaptação do romance de Albert Camus estrelada por um corretíssimo Marcello Mastroianni), "Vagas Estrelas da Ursa" (que traz no elenco Cláudia Cardinale, Jean Sorel e ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, em 1965) e ainda médias metragens, que serão exibidos na mostra.

Enfim: uma excelente oportunidade de conhecer a obra de um artista que enfrentou preconceitos políticos, sexuais e de classe mas que deixou uma obra sólida e corajosa. Acima de tudo, uma lição de cinema.

 
Enviar para um amigo Imprimir
 
Voltar

JORNAL O TRABUCO

redacao@otrabuco.com.br
  Nipotech Brasil Tecnologia